O que manga com leite e movimento anti-vacina têm em comum?

Uma vez eu fui em uma palestra sobre fake news na faculdade em que a palestrante - que me fugiu o nome agora - disse que as fake news não são um advento da internet, que na época da II Guerra Mundial, o desencontro de informações já era presente - e uma estratégia contra o inimigo.


Movimento anti-vacina, Marielle foi esposa de um traficante do Rio de Janeiro, Boulos internado pelo COVID-19, Pabllo Vittar presidente e Terra plana. Mas também: manga com leite pode matar, desodorante causa câncer de mama, Lady Gaga hermafrodita, Flor de Lis é sobre a filha do Milton Nascimento e por aí vai. Entre mentiras e fake news, uma coisa é certa: a propagação de informações falsas pode gerar resultados catastróficos - como a eleição de um presidente que não sabe o que tá fazendo.


A discussão sobre o poder das notícias falsas vem crescendo nos últimos tempos graças à conscientização - ou processo de entender - sobre o impacto dessas informações na sociedade. Mas já parou pra pensar no porquê elas se propagam? Imagina que sua avó, que tem as mais diversas crenças e muitas delas que só fazem sentido na época dela e na criação dela, julga um acontecimento atual a partir do que ela entende enquanto certo. Agora imagina você, cria de outro momento sócio-histórico, de outra criação e de outros momentos, rebate essa informação a partir da ciência. Não esqueça que o personagem principal é sua avó, guarda ela na memória,


A internet se tornou um ambiente de disputa de narrativas e ganha quem agradar mais, não quem está certo, a questão aqui é de comunicação, psicologia e oratória, mas a verdade não entra aqui, não agora.


Você já ouviu falar que comunicação é poder?


Se você tem uma maçã na mão, o poder de comê-la, dar a alguém ou simplesmente jogar fora, é totalmente sua, e a comunicação acontece da mesma forma. Se você tem o poder de falar, de transmitir informações, de se comunicar, você pode fazê-lo, mas, mas se a comunicação é como uma maçã, se torna ainda mais relevante se você tem uma pomar em casa ou uma macieira do lado de casa, ou seja, tem poder social e político para isso, entende onde queremos chegar? Como dito lá em cima, a internet se tornou um espaço de disputa de narrativa assim como qualquer outro meio e veículo de comunicação, e todos esses espaços estão ocupados por pessoas que, há anos, possuem o privilégio de comunicar o que bem entendem, e suas verdades, dentro desses lugares. E fake news também é sobre poder.





Obviamente que a lenda sobre manga e leite matar não tem o mesmo impacto que você assegurar que vacinas fazem mal e nega tomar algo que, cientificamente, foi comprovado, testado e liberado. Mas a responsabilidade de compartilhar e checar a veracidade dessas informações é importante independente se afeta, ou não, o senso comum.


E vamos voltar a sua avó…


Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts comprovou que notícias falsas se espalham 70% mais rápido, e não por grandes perfis ou robôs - inclusive a pesquisa mostra que as notícias falsas e verdadeiras são disparadas ao mesmo número de pessoas - mas sim por pessoas comuns, de poucos seguidores e com uma frequência mediana de utilização das redes sociais, e notícias sobre política e saúde são as que mais geram engajamento e alcance em pouco espaço de tempo.


Agora, lembra da sua avó, com crenças e valores determinados há anos na vida dela. Imagina sua avó dizer algo sobre o governo, ou a vacina, ou sobre aquele artista que ela não gosta, e dias depois aparece uma notícia que, mesmo que minimamente, chega muito perto das opiniões dela sobre o tema. É assim que se propagam as fake news.


Nessa mesma palestra, a mesma citada lá em cima, a palestrante disse também que a propagação das fake news se dá também por ego. Sim, ego. Ego porque é a confirmação de uma crença individual, e como essa afeta o senso comum, e como parte de crenças individuais e de opiniões individuais. Mas além de ego, o sentimento de impotência e de descontrole do cenário social por parte da sociedade vai alimentando essas teorias conspiratórias, e quando essas teorias são divulgadas de forma “oficial”, essa ideia de controle retoma, mesmo que seja ilusório.

Mas, tem o que pouco se fala...


Em um vídeo da Gabi Oliveira, ela traz o perigo das fake news dentro do movimento negro e como existe uma batalha póstuma quando essas se espalham e afetam a família principalmente de jovens negros vítimas de violência policial. Aqui a Gabi traz pra gente como as fake news são um mecanismo de apagamento e de violência contra minorias sociais, e como é necessário nos atentar ao uso desse mecanismo pela estrutura. De novo: comunicação também é poder.


O combate à desinformação é importante em muitas instâncias, seja política, social ou cultural. É necessário, cada dia mais, que a narrativa correta e condizente com a verdade esteja em evidência, principalmente para que a identidade dos agentes se mantenha livre de qualquer distorção em prol de uma mudança de comportamento. E essa estrutura utiliza desse mecanismo de distorção das informações para manter ela em pé, como se fosse uma planta que tem que continuar crescendo, a manipulação de informações é como se fosse um adubo.



Qual fake news você vai desmentir amanhã?


Que comece a explicar que o Pabllo Vittar não vai ser presidente, e que tomar manga com leite é muito gostoso. Depois, pode tentar introduzir o tema sobre vacinas e que a Marielle era casada com uma mulher há um tempão, e quem sabe, mais pra frente, diga como crianças negras que são vítimas de violência são postas enquanto aliadas ao crime como forma de desumanização. Mas um passo de cada vez.




Curadoria: Sue Coutinho

Texto: Pryscila Galvão



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