Da favela ao nomadismo digital

Você deve estar se perguntando como uma uma menina medrosa e com recursos limitados se tornou nômade digital, não é mesmo? Bom, talvez não. Mas eu vou contar assim mesmo.

O ano era 2018.

No dia 1 de janeiro tomei um fora daqueles históricos, cheio de drama com direito a bater com força a porta e comprar uma passagem para uma cidade aleatória. E isso realmente aconteceu! Enquanto eu chorava no colo de uma amiga recebi uma notificação do Booking com desconto em hospedagem em Curitiba (droga de algoritmo!). Entre o Jardim Botânico, o trem turístico e uma ilha, me encontrei na aleatoriedade dos acontecimentos.

Era meu último ano de faculdade, tinha um emprego razoavelmente confortável e muita crise de ansiedade. Essa primeira viagem me acendeu um alerta sobre outras possibilidades além do estigma "faça faculdade, arrume um emprego e vista a camisa da empresa até morrer". As minhas pesquisas no Google eram exatamente assim:


Como viver viajando?

Como viver viajando gastando pouco?

Como viver viajando e trabalhando?

Como viajar de graça?


Fui tomada por uma série de blogs, notícias, entrevistas e vídeos sobre nomadismo digital - uma galera muito louca viajando e trabalhando de qualquer lugar usando um computador. A partir dessa descoberta, me planejei durante um ano inteirinho. Economizei uma graninha, aprendi a fazer macramê (o famoso plano B), fiz uma conta no Instagram e um site para divulgar os meus serviços e comecei no mesmo ano a construir o que tenho hoje.



Como a internet me ajudou a viajar quase de graça



Eu não sou nômade de AIRBNB. Com recursos limitados, tive que descobrir outros meios e ainda bem que já tinham inventado aplicativos para eles.

O Worldpackers é um empreendimento que facilita a troca de trabalho por hospedagem. Fiz voluntariado no Brasil, Colômbia e Peru, consigo contar na mão as raras vezes que paguei por hospedagem mas morei em lugares privilegiados nos últimos anos.

O couchsurfing (prática onde pessoas cedem espaço em casa para receber um viajante de graça) também me veio a calhar. Haviam grupos e grupos, principalmente de mulheres para outras mulheres, cheio de pessoas querendo viajar e querendo se hospedar.

Uma outra descoberta foi o ID Jovem, trata-se de um documento que possibilita o acesso aos benefícios de meia-entrada em eventos artístico-culturais e esportivos e também a vagas gratuitas ou com desconto no sistema de transporte coletivo interestadual para jovens entre 15 e 29 anos, pertencentes a famílias com renda de até dois salários mínimos por pessoa e com Cadastro Único do Governo Federal. Uma loucura, pois fui parar em Minas Gerais com apenas 15 reais.


Conseguindo clientes sendo viajante


Eu passei um ano inteiro me planejando, desenhando e redesenhando meu modelo de negócio. Ainda no final de 2018, inaugurei meu site e nos primeiros 5 minutos com ele no ar recebi uma mensagem na Priscila Bueno (Santo Fio Lab):


"Olá, quero saber mais sobre os seus serviços!"


Trabalhamos juntas por ano. E em um mês com o meu negócio lançado à sorte, fechei inscrições para oficinas quase instantaneamente, contratos de consultoria e caminhava para ter clientes fixos todos os meses.

Sorte? Empenho? Meu trabalho anterior? Nem um, nem outro.

Durante o planejamento também participei de workshops e cursos sobre modelos de negócios digitais. Aprender a diversificar a renda e usar o seu background para construir uma presença digital como profissional foi imprescindível para eu sobreviver ao primeiro ano.

Vejo muitos gurus indicando a criação de conteúdo. Crie conteúdo até ter tendinite. Bom, eu só falava sobre o que estava fazendo, quais as vantagens de ter uma profissional que tinha contato com outras culturas e sem gastos fixos. O que é comunicação de estratégias de marketing? O futuro da Economia Criativa? Perguntas que os meus clientes em potencial tinham virou conteúdo no meu site e Instagram. Foi assim que encontrei a resposta para os problemas das pessoas e cheguei ao segundo ano de nomadismo digital.


Lição #1:

Meu único propósito era não me tornar CLT de novo. Então aprendi bem rapidinho que o meu negócio não era sobre mim. Aprendi a responder de forma simples e objetiva as perguntas das pessoas e quando elas queriam mais, lá estava eu oferecendo o melhor serviço.


Além de deixar todo mundo bem ciente do que eu faço, comecei a produzir conteúdo, encontrei uma parceria comercial e tratei de me penetrar em uma bolha de produtores independentes cheios de demandas que ninguém sabia resolver. Difícil não foi encontrar clientes, mas fazê-los pagar por isso.


Lição #2:

Eu tive e precisei de ajuda durante todo esse tempo. Passei por processos de consultoria e "tomei chamada de atenção" de gente mais experiente que eu que acreditava no trabalho que eu estava realizando. Esse negócio de "autoridade" nos primeiros anos em que de fato você está tentando construir uma carreira usando a internet é bobeira. Você vai precisar de ajuda e muita noção de que vai ser marcado por aprendizados, erros e acertos. Inclusive, não esqueça de ajustar a sua precificação.



Sobre a reserva de R$20.000,00 que nunca aconteceu


Quando comecei a mergulhar nas pesquisas sobre nômades digitais, coloquei na cabeça que eu tinha que juntar uma reserva financeira de R$20.000,00. Isso nunca aconteceu. Se naquela época eu tivesse R$4.000,00 na poupança era muita coisa. Não cometa esse erro, mas não se prenda no número de outra pessoa.

O ideal é que você tenha de reserva pelo menos 6 meses do seu salário. Mas como eu disse, passei um tempo sem gastos ou custos fixos. Minha única preocupação era comida, deslocamento para quando eu precisasse fazer, renovação de softwares e domínio anualmente. A internet, água, luz, aluguel e até café da manhã não foram uma preocupação para mim.

Quanto mais caro seu estilo de vida, maior é a sua reserva. Simples, né? Materialize o conforto do qual você abrirá mão.




Tinha sonhado um milhão de vezes sobre como seria a minha primeira vez viajando de avião. Li tanto sobre isso em milhão de livros de aventura... Mas poucas vezes encontrei mulheres como eu sendo as protagonistas. Os livros foram a porta de entrada para que eu me tornasse autora da minha própria história.





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