Como é ser periférica no Marketing

Eu nem sempre acordo cedo, porque sempre durmo tarde. Tenho quatro dias na semana para gravar os vídeos e capturar os áudios que preciso. Sim, eu sei que a semana tem sete, é que nos outros três tem baile funk e a sonoplastia da periferia não é legal para o Santa Cecilier. Estou criando uma plataforma de streaming. Na tentativa de construí-la de forma colaborativa, algumas manas do empreendedorismo feminino #supporyourlocalgirl decidiram que era uma boa se apropriar da ideia, com as suas grandes equipes, tempo livre e muito silêncio, deu certo correr na frente. É incrível a forma com que a estética da aceitação funciona, é uma espécie de passe livre para a sociedade. Quem tem, pode transitar por quaisquer espaços e caso vacile, não precisa se preocupar, o passe livre da direito à condolência.

Além de fazer o meu trabalho, curso uma especialização e uma pós-graduação em uma instituição renomada e, é claro, antes disso já colecionava papéis na parede. Estive em aldeia indígena, ocupações e em debates dentro da segunda maior favela de São Paulo, mas parece não ser o suficiente, para mim sempre há um teto. Eu não construí esse teto.



Eu falo muitas gírias, ouço funk e ainda não vi sentido na estética perfeitamente alinhada com o discurso calmo e vazio. Não consigo compreender a aversão à dinheiro, a substituição do termo "venda" por "conexão", mais uma vez esvaziando sentidos e sensações humanas para mascarar um propósito questionável.

Nesses dias aí, estava em uma chamada conversando com uma amiga. Desliguei. Retornei. "Amiga, desculpa, estava tendo uma troca de tiros aqui na rua. Onde paramos?" A abstração é uma ferramenta de trabalho para quem não pode escolher se vai se posicionar ou não - queria eu poder escolher. A violência nunca foi uma manchete na minha televisão, estava ali na frente, no vizinho, nos incêndios criminosos, no amigo que perdi para a violência policial.

Eu tenho que continuar trabalhando, nem é por mim não. Eu já teria jogado a toalha, mas nem isso pude escolher. O Sistema é cruel, o inimigo usa forças que oprimem. E todo dia, quando eu dou um passo, através da exploração na minha mão de obra e vida acadêmica, o meu discurso é dilacerado e distribuído... Assim, esvaziado de significado. É o preço.

Eu parei de pensar nos seguidores quando entendi que não era a personificação do sucesso, a imagem à ser vendida. Quando você se parece comigo, vão te convencer que é melhor ficar nos bastidores. Vão te roubar todo dia um pouco, sequestrar os seus valores, silenciar as suas verdades, diminuir a sua existência. A regra é clara: pobre é bom, desde que a narrativa de vida seja obra do opressor. Eles querem e vão tentar te vencer pelo cansaço, isso se não te matarem antes que você se canse.

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